ARTIGOS

Sobre a necessidade de se aprender a falar de hiv/aids

O que Caio F., talvez, não pudesse imaginar é que justamente a sua dificuldade de falar sobre a sorologia positiva pudesse ajudar a outras pessoas a conversarem sobre o assunto.

01/11/2019 às 23:25:21

“Alguma coisa aconteceu comigo. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Quando souber finalmente o que foi, essa coisa estranha, saberei também esse jeito. Então serei claro, prometo. Para você, para mim mesmo. Como sempre tentei ser. Mas por enquanto, por favor, tente entender o que tento dizer.”

Esse é um trecho da “Primeira Carta para Além dos Muros”, do escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996), crônica em forma epistolar, publicada no jornal Estado de S. Paulo em 21 de agosto de 1994, em que o autor revela publicamente sua vivência com o hiv/aids. A carta foi publicada no livro de correspondências do autor, Cartas – Caio Fernando Abreu (Aeroplano), organizado pelo poeta Italo Moriconi em 2002. O que Caio F., talvez, não pudesse imaginar é que justamente a sua dificuldade de falar sobre a sorologia positiva pudesse ajudar a outras pessoas a conversarem sobre o assunto.

Utilizei esse trecho como epígrafe e inspiração para organizar Tente entender o que tento dizer (Bazar Tempo, 2018) uma antologia de poemas, reunindo 96 poetas de diferentes gerações, gêneros e sorologias a escrever sobre hiv/aids – um tema que permanece rodeado de tabu e preconceito, também na literatura, mais de três décadas após o surgimento da epidemia. Escolhi como título uma passagem de texto de Caio F. por ele ter sido vítima da aids e, principalmente, por abordar a questão do hiv/aids de modo mais subjetivo e metafórico em seus textos, permitindo assim uma leitura mais aberta como a poesia.

A cineasta Emília Silveira nomeou o seu documentário, em parceria com o roteirista Miguel Paiva, sobre a trajetória de pessoas com hiv/aids (em que participo ao lado Bia Nickytinha, Silvia Almeida, Pierre Freitas, Brunna Valin) com mesmo título da antologia – Tente entender o que tento dizer (MPC Filmes, 2018) – por compartilhar também do entendimento da importância Caio F., e de sua saída do “segundo armário”, para uma nova ressignificação do imaginário do hiv/aids.

Agência Aids

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