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O show tem que continuar

16/03/2019 às 21:08:12

Depois de pouco mais de cinco anos à frente do escritório do Unaids no Brasil, chego ao fim de minha missão no país com a sensação de contradição. Por um lado, dever cumprido! Foram inúmeros obstáculos superados e conquistas alcançadas e, tudo isso em uma prazerosa caminhada repleta de resultados positivos que traçamos como fruto do trabalho em equipe e como fruto de parcerias muito importantes com pessoas, movimentos, instituições, governos e empresas. Por outro lado, ainda não alcançamos as metas e não é hora de desacelerar os esforços.

É muito gratificante olhar para trás e perceber que tantas horas de trabalho, momentos de turbulência e desafios que pareciam insuperáveis foram se transformando, pouco a pouco, em resultados concretos, com impacto direto para as pessoas a quem servimos, em especial pessoas vivendo com HIV e aquelas mais vulneráveis ao vírus—gays e outros homens que fazem sexo com homens, travestis e pessoas transexuais, trabalhadores do sexo, pessoas que usam álcool e outras drogas, pessoas privadas de liberdade, entre outras.

Quando cheguei ao Brasil em 2013, senti que o país seguia uma rota diferente do que apontavam os boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde. No primeiro relatório de Monitoramento Global da Aids (sigla GAM, na época GARPR), o centro das preocupações era uma possível ‘feminização’ e ‘interiorização’ da epidemia, enquanto os boletins demonstravam uma crescente epidemia entre jovens, principalmente gays, trans e travestis. Hoje vejo com orgulho os movimentos exigirem mais políticas públicas específicas para essas populações e também o esforço dos vários jovens que integraram a resposta à aids.

Noto também, com muita satisfação, que o debate de sociedade sobre a epidemia, quase inexistente quando cheguei ao Brasil, revigorou-se nestes últimos anos, trazendo à tona discussões importantes na mídia tradicional, nas redes sociais, nos espaços de convívio em sociedade e até mesmo em instâncias legislativas. Nestas duas décadas trabalhando diretamente com temas relacionados ao HIV, sei como é difícil e complexo inserir e manter como relevante o debate sobre aids nestas diferentes arenas, em especial nos dias de hoje.

É gratificante hoje perceber que o debate de sociedade sobre aids está posto no Brasil. Sabemos que este resultado é fruto de um esforço conjunto de diversos atores da resposta ao HIV no país, mas temos a certeza de que contribuímos de forma proativa, inovadora e incisiva para que este cenário se consolidasse, criando oportunidades, inspirando governos, sociedade civil, populações vulneráveis e pessoas vivendo com HIV para que também trilhassem conosco os caminhos possíveis para chegarmos ao fim da epidemia de aids até 2030.

Para que essa caminhada de conquistas se tornasse possível, foi necessário reestruturar as bases de nosso trabalho e revigorar instâncias que são a essência de nossa razão de existir. Saímos de um escritório improvisado em contêineres para uma verdadeira sede, capaz de proporcionar estrutura decente à equipe e também de acolher reuniões, conversas e debates com tantos parceiros, consultores, estagiários e amigos. E enquanto arrumávamos a casa física, revigoramos também o time do Unaids e também o trabalho da Equipe Conjunta da ONU sobre HIV e AIids (Joint Team) que ganhou novo fôlego. A Equipe Conjunta voltou a se reunir com mais frequência, deliberando sobre o trabalho coordenado da ONU para a resposta à aids em projetos, iniciativas, congressos e tantas outras frentes, e nesse último ano preparando também um plano financiado conjuntamente.

A Equipe Conjunta também foi essencial na retomada dos encontros de alto nível do Grupo Temático Ampliado das Nações Unidas sobre HIV /Aids (GT Unaids). Agradeço a Unicef, Unodc e Unfpa que copresidiram o GT neste período, elevando o nível de participação e contando com a presença de autoridades relevantes para os temas centrais escolhidos para debate: drogas, presídios, mídia, tuberculose e Declaração de Paris, para citar alguns. Assim, o GT ganhou peso e relevância capazes de efetivamente mobilizar parceiros importantes e promover sua influência sobre temas centrais para a resposta à aids no Brasil.

Ampliamos também nossas relações com os governos nos âmbitos federal, estadual e municipal e fomos capazes de mobilizar recursos e novas parcerias para iniciativas de grande porte, como as ações de prevenção realizadas durante a Copa da FIFA 2014 (campanha Proteja o Gol) e os Jogos Olímpicos 2016 do Rio de Janeiro (campanha #EuAbraço). Em parceria com o Ministério da Saúde, ONGs e outros representantes da sociedade civil e de pessoas vivendo com HIV, apoiamos distribuições massivas de preservativos e alcançamos dezenas de milhares de pessoas em ações de testagem e zero discriminação realizadas nas ruas e nas redes sociais.

Como fruto de muito esforço, o Unaids retomou seu papel de protagonista e parceiro de primeira linha para ações, projetos e iniciativas de resposta ao HIV no país. Tornamo-nos sinônimo de modelo de qualidade, de inovação e de estratégias de ponta nesta área.

Por meio de parcerias inéditas com o Ministério da Saúde e outras agências da ONU, como Unesco, Unfpa e Unicef, capacitamos jovens lideranças de populações-chave e populações vulneráveis ao HIV para que trouxessem a voz da juventude para o movimento de AIDS. Promovemos os princípios da Zero Discriminação através de treinamentos de audiovisual para pessoas trans (em parceria com MAC Aids Fund e a cidade de São Paulo), mobilização de Embaixadores de Boa Vontade e influenciadores digitais, engajamento da sociedade civil e de pessoas vivendo com HIV, além de governos, empresas e academia.

Implementamos no Brasil, também em parceria com o Ministério da Saúde, iniciativas pioneiras como a Agenda para Zero Discriminação nos Serviços de Saúde, que ganhou corpo através da realização dos Diálogos com populações-chave nas cinco regiões do Brasil e do Seminário homônimo que reuniu especialistas, gestores públicos, academia, sociedade civil e pessoas vivendo com HIV. Esta empreitada resultou em compromissos concretos para definir as diretrizes e padrões de um serviço de saúde Zero Discriminação no Brasil—uma iniciativa pioneira dentro do Unaids em todo mundo!

Também tomamos a liberdade de ousar e tentar ações novas. Com muito esforço e dedicação, além de risco calculado, mas tivemos a satisfação de ver que cada empreitada atraía mais parceiros comprometidos.

Na mídia tradicional, por exemplo, a parceira com a TV Globo resultou na inserção do tema HIV em novelas, séries, minisséries e publicidade social. Entre tantos resultados concretos, isto nos rendeu uma orgulhosa indicação ao prêmio Emmy Kids Internacional, pelo trabalho que desenvolvemos em parceria com a Globo na produção da websérie Eu Só Quero Amar (indicação de melhor série na categoria “digital”), desdobramento do trabalho realizado ao longo de seis meses com a equipe da novela Malhação: Seu Lugar no Mundo.

Nas mídias sociais, a parceria com Hornet gerou pesquisas e dados. Debates de sociedade também foram feitos em eventos presenciais como #EseFossecomVocê, ou de ações online, como o #DesafioUnaids—que alcançou 1 milhão de visualizações orgânicas no Youtube em menos de um mês.

Hoje, temos o orgulho de dizer que construímos pontos importantes de diálogo e engajamento com a população LGBTI através de instâncias como as de organizadores de Paradas LGBTI espalhadas pelo Brasil, com quem temos conversado constantemente sobre a necessidade urgente de reapropriação do debate em torno do HIV, principalmente entre jovens gays e outros HSH, além de jovens travestis e mulheres trans.

Saio do Brasil com orgulho desse trabalho cumprido, da equipe do Unaids, dos consultores e estagiários e de todos aqueles que nos apoiaram. Tenho também a certeza e convicção que este trabalho terá continuidade porque ainda não chegamos ao fim. Como cantaria Freddie Mercury, “o show tem que continuar”, porque esta meta só será alcançada quando ninguém for deixado para trás.

Muito obrigada!

Georgiana Braga-Orillard é diretora do Unaids no Brasil.

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