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9 anos que descobri o HIV na minha vida

Foi necessário que você tomasse residência em meu corpo para que eu percebesse isso, e por isso eu sou grata.

02/11/2019 às 16:05:31

Carta de um Soropositivo ao HIV
Caro HIV:
“Espero que você esteja bem. Faz um tempo que não lhe escrevo, e no final de mais um ano eu quero tirar um momento para reconhecer sua presença. Você há de se recordar do contrato que eu fiz que você assinasse exatamente a 9(nove) “dia 2 de Novembro de 2010″ , quando você se instalou em meu corpo. Nesse contrato, eu concedi que a sua presença continuada acontecesse sob os seguintes parâmetros:*
Você vai ficar quieto. Você não vai procriar. Você não vai irritar, molestar, envenenar, ou influenciar de qualquer outra maneira as células e funções de outros órgãos e sistemas no meu corpo. Você vai ocupar um espaço pequeno, sem portas nem janelas, aproximadamente do tamanho da ponta de um alfinete num reservatório nos confins do meu corpo, onde você não terá nutrição nenhuma, nenhum visitante, e de onde não terá qualquer esperança de escapar.
Obrigada, HIV, por respeitar os parâmetros simples desse contrato. Estes foram 9 anos saudáveis e produtivos, e eu estou ansiosa para que nossa cooperação siga em frente. Estou ciente que você não sai muito, se é que sai, e achei que seria bacana da minha parte lhe fornecer algumas notícias. Veja aqui o que você fez por mim, sem saber, nos últimos anos.
Você me deu uma intuição aguda sobre o que ocorre com meu corpo. Mais do que nunca, agora eu consigo monitorar como me sinto. Eu estou consciente de cada espirro, dor, resfriado, e glândula inchada muito mais rapidamente do que no passado, e mantenho contato com profissionais da saúde com mais frequência que a média das pessoas. Como resultado, meu médico me informou que eu tenho os exames de uma mulher de 20 anos com plena saúde, tirando, é claro, o HIV. Eu já disse que eu completo 46 anos ano que vem ? Cada aniversário é cada vez mais saboroso. Obrigado por isso.
Você me forneceu uma compaixão por outros que eu não tinha antes. Eu me tornei capaz de conversar com outros que acabaram de receber o diagnóstico, ou que vivem com o HIV ou outras condições médicas crônicas, e realmente me colocar em seus lugares. Eu escuto as pessoas melhor e aconselho melhor também. Eu sou grata por essa capacidade.
Graças a você, eu vivo no presente. Quando encarei minha mortalidade, eu comecei a ver como é importante ser grata por cada dia que nasce, novinha em folha. Eu compreendo agora: tudo que importa é esse momento, e o seguinte, e o que vem depois. Eu desacelerei, e deixei de perder o sono por causa do que passei a chamar de Problemas de Primeiro Mundo. Eu inspiro, expiro, descubro, decido, e controlo.
Eu falo com compaixão. Eu não entro em discussões raivosas, fofocas, ou dramas. Eu mantenho minha palavra impecavelmente. Eu não levo mais as coisas para o lado pessoal. Para falar a verdade, eu nem levo você, HIV, para o lado pessoal. Você está aqui, e, até onde eu consigo prever, aqui você vai continuar. Não há nada que eu possa fazer para me livrar de você, pelo menos não no presente. Eu consigo suprimi-lo!
Obrigada por colaborar com a supressão. A supressão enveredou para muitas áreas do que já foi minha vida louca e preciosa. Eu suprimi a negatividade em troca de uma vida positiva e construtiva. Eu suprimi o medo e abri os braços para a curiosidade e o amor. Eu pus fim a hábitos destrutivos em favor de projetos criativos. Eu passei a buscar conexões, ao invés de cortar laços. Eu fui muito além da minha zona de conforto, porque eu percebi que minha zona de conforto não é nada confortável.
Ela é segura e restrita, mas, assim como o lugar em que você vive no meu corpo, HIV, ela é um cômodo pequeno, escuro e sem janelas. Eu prefiro a incerteza e a aventura dos espaços abertos e amplos. Eu prefiro visitar as beiradas e os rebordos, as periferias das cidades onde mora Deus. Eu vou mantê-lo nesse espaço para que eu possa partir e viver a vida apesar de você, e, ainda assim, por sua causa.
Minha vida como uma mulher soropositiva é, realmente, uma vida positiva. Eu não preciso de negatividade, não preciso me depreciar, e não tenho espaço em minha vida para o estigma que é lançado sobre mim pela comunidade em geral por causa do meu status sorológico.
Em seu rastro, eu aceitei o amor. Eu sou positiva. Eu sou uma filha de Deus, bela e divina. Foi necessário que você tomasse residência em meu corpo para que eu percebesse isso, e por isso eu sou grata. Eu o perdoo, e também lhe agradeço. Você buscou me destruir de dentro de fora, e ao invés disso você me tornou mais forte do que eu jamais julguei ser possível.”
Sinceramente,
Silene Santos  – Radialista e membro da RNP CE

Contatos (88) 98868 5503 – Juazeiro do Norte CE

E VIVA A VIDA! COM AMOR E SEM PRECONCEITO!

(Traduzido do artigo de Kevin Varner para a revista The Advocate)

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